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O que significa viver uma vida guiada por valores? Quando o sentido da vida se torna mais importante do que a ausência de sofrimento

6 min de leituraPor palmaweb
Bússola apontando direção, simbolizando uma vida guiada por valores

“Durante muito tempo, muitas pessoas acreditaram que uma vida feliz seria aquela em que não existissem medo, tristeza, ansiedade ou frustrações. No entanto, basta observar a experiência humana para perceber que essas emoções fazem parte da vida de todos nós. A pergunta, então, deixa de ser ‘como eliminar completamente o sofrimento?’ e passa a ser outra: ‘como construir uma vida que faça sentido, mesmo quando o sofrimento aparece?’. É justamente essa mudança de perspectiva que está no centro da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).”

Antes de tudo: o que são valores?

Na linguagem cotidiana, a palavra “valores” costuma estar associada a princípios morais.

Na Psicologia, ela possui um significado um pouco diferente.

Valores representam a maneira como desejamos estar presentes no mundo.

São direções que orientam nossas escolhas.

Algumas pessoas valorizam o cuidado.

Outras, a honestidade.

A aprendizagem.

A coragem.

A generosidade.

A criatividade.

A responsabilidade.

O amor.

O respeito.

Os valores não dizem respeito ao que você conquista.

Eles dizem respeito à maneira como você deseja viver.

Objetivos e valores não são a mesma coisa

Essa diferença costuma trazer bastante clareza.

Imagine alguém cujo objetivo seja concluir uma graduação.

Esse objetivo possui um começo, um percurso e um fim.

Depois de alcançado, ele termina.

Agora imagine o valor da aprendizagem.

Mesmo após a formatura, ele continua podendo orientar escolhas.

O mesmo acontece com o cuidado.

Com a honestidade.

Com a presença.

Com a gentileza.

Objetivos podem ser concluídos.

Valores continuam indicando a direção da caminhada.

Quando perdemos contato com aquilo que realmente importa

Em alguns momentos da vida, passamos a organizar todas as nossas escolhas em torno de um único objetivo:

evitar sofrimento.

Deixamos de conversar por medo da rejeição.

Adiamos projetos por medo de errar.

Evitamos relacionamentos por medo de sofrer novamente.

Recusamos oportunidades por medo da ansiedade.

Sem perceber, nossa vida começa a ser guiada não pelos nossos valores, mas pelos nossos medos.

É compreensível.

Todos nós tentamos nos proteger.

O problema é que uma vida construída apenas para evitar dor costuma se tornar cada vez menor.

O olhar da Terapia Cognitivo-Comportamental

A TCC nos ajuda a perceber como pensamentos, emoções e comportamentos podem nos afastar daquilo que é importante.

Imagine alguém que pensa:

“Se eu não fizer tudo perfeitamente, é melhor nem tentar.”

Esse pensamento pode levar ao adiamento constante de projetos significativos.

Ao longo do tempo, a pessoa não sofre apenas por causa do pensamento.

Ela sofre também pelas experiências que deixou de viver.

A terapia busca ampliar essas interpretações e favorecer escolhas mais coerentes com aquilo que realmente faz sentido para cada pessoa.

O que a ACT acrescenta?

Na ACT, os valores ocupam um lugar central.

Eles funcionam como uma bússola.

Uma bússola não elimina montanhas.

Não impede tempestades.

Não encurta o caminho.

Mas ajuda a lembrar para onde queremos seguir.

É exatamente isso que os valores fazem.

Eles não retiram as dificuldades da vida.

Mas oferecem direção quando as emoções parecem nos confundir.

Perguntas como estas costumam ser muito importantes:

Que tipo de pai, mãe, filho, amigo ou parceiro eu desejo ser?

Como quero tratar as pessoas, mesmo nos dias difíceis?

Que características gostaria que estivessem presentes na minha forma de viver?

Perceba que nenhuma dessas perguntas depende de controlar completamente as emoções.

Elas dependem das escolhas que fazemos.

Uma vida guiada por valores não é uma vida perfeita

Esse talvez seja um dos maiores equívocos sobre saúde mental.

Viver de acordo com os próprios valores não significa sentir-se bem o tempo inteiro.

Significa continuar caminhando na direção considerada importante, mesmo quando surgem medo, tristeza, insegurança ou frustração.

Imagine alguém cujo valor seja o cuidado com a família.

Haverá dias de cansaço.

De preocupação.

De conflitos.

Ainda assim, esse valor continuará orientando pequenas escolhas.

É isso que dá continuidade e sentido à caminhada.

Pequenas escolhas constroem grandes direções

Às vezes imaginamos que uma vida com significado depende de grandes acontecimentos.

Mas, na prática, ela costuma ser construída por decisões discretas.

Ouvir alguém com atenção.

Pedir desculpas.

Estabelecer um limite respeitoso.

Cuidar da saúde.

Aprender algo novo.

Estar presente em um momento importante.

Essas escolhas talvez pareçam pequenas.

Mas são elas que, repetidas ao longo do tempo, constroem uma existência coerente com aquilo que valorizamos.

E quando nos afastamos dos nossos valores?

Isso também faz parte da experiência humana.

Todos nós, em algum momento, agimos movidos pelo medo, pela impulsividade ou pelo cansaço.

Uma vida guiada por valores não exige perfeição.

Ela exige disponibilidade para retornar.

Assim como um navegador ajusta sua rota quando percebe que saiu do caminho, também podemos revisar escolhas e seguir novamente na direção que faz sentido para nós.

Não é necessário esperar uma segunda vida para recomeçar.

Muitas vezes, basta uma próxima decisão.

Como descobrir os próprios valores?

Essa é uma pergunta frequente.

Uma forma de começar é refletir:

  • Que tipo de pessoa desejo ser nas minhas relações?
  • O que gostaria que as pessoas lembrassem sobre a maneira como as tratei?
  • Em quais momentos da vida me senti verdadeiramente coerente comigo mesmo?
  • Que atitudes despertam em mim admiração?
  • Se o medo não decidisse por mim, em qual direção eu gostaria de caminhar?

Essas perguntas não produzem respostas prontas.

Mas costumam abrir caminhos importantes de autoconhecimento.

Para refletir

Imagine que alguém perguntasse, ao final da sua vida:

“O que realmente orientou suas escolhas?”

Talvez a resposta não esteja nos títulos conquistados.

Nem na quantidade de dinheiro acumulada.

Nem na ausência de sofrimento.

Talvez ela esteja na forma como você amou.

Na honestidade com que viveu.

Na coragem de permanecer fiel àquilo que considerava importante.

Na presença oferecida às pessoas que fizeram parte da sua história.

Porque, no fim das contas, uma vida significativa não é medida apenas pelo que conquistamos.

Ela também é medida pela pessoa que escolhemos ser ao longo do caminho.

E talvez essa seja uma das maiores contribuições da Psicologia.

Lembrar que saúde mental não consiste em viver uma vida sem dor.

Consiste em desenvolver recursos para que a dor não seja a única responsável por decidir a direção da nossa existência.


Perguntas frequentes

Viver de acordo com os valores significa alcançar todos os meus objetivos?

Não. Valores representam uma direção para a vida, enquanto objetivos são conquistas específicas. É possível viver de forma coerente com os próprios valores mesmo quando alguns objetivos ainda não foram alcançados.

Os valores podem mudar ao longo da vida?

Sim. À medida que amadurecemos e vivemos novas experiências, alguns valores podem ganhar mais importância, enquanto outros podem perder espaço. Esse processo faz parte do desenvolvimento humano.

Como a psicoterapia pode ajudar?

A psicoterapia pode favorecer o autoconhecimento, ajudando a identificar os próprios valores e a construir escolhas mais coerentes com aquilo que realmente faz sentido para cada pessoa, mesmo diante das dificuldades inevitáveis da vida.